Da aparente ausência do medo
Em minha vida eu já:
- Tive uma arma apontada para o meu peito.
- Quase morri afogada
E atropelada.
- Já estive nas montanhas-russas mais malucas
que encontrei e foi por esse mesmo motivo
que as escolhi.
-Caminhei em plena escuridão por 8 km.
Você, em algum momento, deve ter passado numa
estrada à noite. Vegetação e mais vegetação em volta,
que você só viu porque os faróis do automóvel/ônibus/caminhão
iluminaram àquela direção. Pois bem, era essa a escuridão.
- Jorrei sangue. Rasguei pele. Vi músculos e gordura
– meus somente – expostos.
- E não levei em consideração certas ameaças que
hoje eu repensaria, com certeza.
Profissionalmente:
- Atendi as pessoas mais detestáveis, mal-educadas e grosseiras.
Berrando ao telefone, na minha cara, batendo na minha
mesa e derrubando coisas.
- Levantei em meio a uma reunião de diretores e
supervisores e disse, em claro e bom português,
que aquela reunião era inútil, burra e que estávamos
perdendo tempo.
E que eu queria ir embora.
- Diversas vezes, por conta de meu temperamento
impulsivo e apaixonado, falei demais e meti os pés
pelas mãos. Mas mantive minha posição.
Academicamente:
- Apresentei trabalhos dificílimos: tanto por falta de
coesão do grupo – deve haver uma área no inferno
chamada “Trabalhos em Grupo” – quanto pela aflição
de um professor meticulosamente atento que
alardearia qualquer falha.
- Suei frio com os brancos eventuais.
- Amaldiçoei minha prolixidade quando eu deveria ser
objetiva e sucinta.
- Repeti insultos e ironias perto das pessoas que eram
o tema delas. E isso inclue professores.
- Tremi diante de provas que eu simplesmente não sabia
por onde começar e de diante de trabalhos que
eu não conseguia concluir.
***
Da perplexidade e do engasgo diante dos
próprios sentimentos
Peça-me para falar sobre mitologia em geral,
a vida de Cleópatra, Roma Antiga, filmes de zumbis,
desenhos animados, fofocas inúteis sobre celebridades,
astrologia, notícias bizarras, filmes que aparentemente só
eu assisti ou literatura.
Ou até sobre o nada: posso tecer um longo e nonsense
discurso sobre a aerodinâmica das asas das joaninhas.
Mas para me colocar numa situação constrangedora,
pergunte-me sobre meus sentimentos.
Falar sobre isso é meu nó górdio.
Meu calcanhar de Aquiles. É a ferida exposta.
Ferida não é o termo: é como estar nua numa
tempestade de neve.
Essa é a imagem
***
Da tensão constante e da relevância das palavras
E admito: sou tensa. Internamente tensa.
Você olha para mim e imagina estar diante
da pessoa mais paciente, observadora e tolerante
do Universo.
Coisas que também sou, aliás.
O “problema” é a minha mente que procura mensagens
onde simplesmente não há nada.
Ou que não entende que nem tudo precisa
ter um significado.
E também de levar tudo à ferro e fogo.
Repetem isso para mim, sempre:
- Não leve tudo tão a sério.
Fato que considero curiosamente contrastante
para uma fã de Monty Phyton como eu.
Eu adoraria ser displicente, comedida,
dissimulada e fria.
Controle emocional é o que há, dizem: alguém
me ensina?
Eu não consigo sentir algo sem “queimar” por dentro.
Não consigo ter sensações, impressões e opiniões e vesti-las
de outras coisas senão elas mesmas.
Não faço parte dos medianos mornos.
Ou quem sabe eu faça parte dos medianos que acham
que não o são, mas isso é outra história.
O que quero dizer é que eu realmente gostaria de
expressar meus sentimentos de uma forma mais calma.
Eu simplesmente queimo e espero que o outro
lado sinta as labaredas junto comigo...
Verborragia terapêutica
E você que é tão paciente, curioso ou masoquista,
merece uma canção.
Porque no final das contas, tudo se resumiria a isso:
Disse Jay Cee
às 1:08 AM
(...)
